junho 16, 2004

Para a minha amiga Júlia

Lembras-te? Já lá vão três décadas.

Era uma vez uma miúda de vinte anos ingénuos que acreditava nos “amanhãs que cantam” e na “superioridade moral” dos homens que diziam estar a lutar pela construção, na terra, desses mesmos amanhãs cantantes....
Afinal... o resto da história tu conheces...
Contigo desabafei muitas vezes o meu espanto dorido - e as minhas lágrimas - ao ir descobrindo, da pior maneira, quanto me enganara, na minha ingenuidade tola. Os “amanhãs que cantam” ninguém os chegou a ouvir, não passavam de uma fórmula com data de validade já ultrapassada. E quanto à tal “superioridade moral” (explicada no livrinho com o mesmo nome), deixem-me rir, dependia das pessoas e das situações. Havia de tudo: umas quantas pessoas que hoje recordo com admiração e gratidão, muita gente amorfa e deixa-andar que estava naquela onda porque em 1974 /1975 era a onda da moda neste nosso aparvalhado país e... pois, havia também uma boa meia-dúzia de “gente com olhinhos” que sacaneava os outros pelas costas e, cheios de falinhas mansas e/ou empolados discursos pseudo-revolucionários, vendia a sua “superioridade moral” por um prato de lentilhas, quando não por um mísero pires ou colher de lentilhas.

Júlia, duvido que, lá no teu isolamento sem net da Serra D`Aires, chegues a ler isto. Talvez melhor assim. Recorda antes os momentos alegres de convívio, o tal Natal em que fomos ao Castelo de S. Jorge (lembras-te?), as conversas por vezes divertidas nos intervalos do trabalho e do almoço, o tal postal de Picasso que dizes que te ofereci e que já nem recordo.
Gostei muito de te rever hoje, a ti e à tua filha.
Para ti, minha amiga Júlia (Pax), um poema da Sofia que está de acordo com a tua maneira de ser.

Ana

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão,
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão,
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendos,
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
É tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por vmar em junho 16, 2004 06:08 PM
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